Domingo, 28 de Dezembro de 2014

RECORDAÇÕES DE ANGOLA

Há dias consegui o contacto de José Carlos Simões, um ex-militar que fui render no CCP do ComZML, na cidade do Luso (hoje Luena), no Leste de Angola, em Março de 1971, e hoje li-lhe um texto que escrevi em 21 de Março de 2004 e que reza assim:

 

COCA-COLA COMO BRONZEADOR

Os primeiros dias no Luso foram, como se compreenderá, ricos em experiências. E os primeiros tempos dos “maçaricos” eram os de despedida dos “velhos” que se preparavam par regressar a Portugal.

 

Quando em Março de 1970 chegámos ao Centro Cripto do Comando da Zona Militar Leste, o Simões e o Farelaira começaram a fazer contas à vida e a arrumar as suas coisas para rumarem até Viseu e foram eles os nossos grandes cicerones quer nas questões relacionadas com as tarefas militares, quer no dia a dia da cidade.

 

Estávamos de serviço um dia e folgávamos dois dias seguidos e assim sucessivamente. Para o Simões, mais preocupado com as questões da imagem, não se justificava muito regressar a Portugal, ao fim de mais de dois anos, e aparecer à família e aos amigos com a pele muito branca como se tivesse estado no Pólo Norte. E havia que aproveitar os últimos dias para passar as manhãs no rio para apanhar um pouco de cor.

 

Como não havia bronzeadores, o Simões pensava resolver a situação com Coca-Cola, pois estava convencido de que o refrigerante, aplicado na pela e com a acção do Sol teria particularidades pigmentárias.

 

E lá íamos de toalha debaixo do braço e garrafa de Coca-Cola na mão a caminho do rio Luela atravessando os quimbos e cumprimentando os velhos nativos com o tradicional “môio” e recebendo delicadamente como resposta “bundia”.

 

Na margem do rio, nas poucas zonas de areia que tinha, ou na erva rasteira, estendíamos a toalha e deliciávamo-nos com o Sol, já que a pouca profundidade das águas não dava para grandes banhos.

 

Chegava a altura de o Simões me pedir para lhe espalhar Coca-Cola nas costas e aí entrava a malandrice do “maçarico” fazendo a partida ao “velhinho” e em vez de fazer o que ele pedira, molhava a mão no rio, deixando-o convencido de que lhe estava a aplicar o precioso líquido americano nas costas.

 

Enquanto isto, ía bebendo pela garrafa valendo-me que os outros camaradas se iam aguentando à bronca sem me denunciar.

 

Ainda hoje o Simões, de quem nunca mais tive notícias, deve estar convicto de que chegou a Portugal bronzeado graças a um produto que estava proibido no nosso “puto”, por decisão de Salazar.

publicado por angolaleste às 19:34
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.Março 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
12
13
14
15
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. SPP aposta na investigaçã...

. Associação de antigos com...

. RECORDAR

. Universitários devem prod...

. De Luanda ao Dondo

. Reactivação do tráfego In...

. Transportação do minério ...

. ABACAXI PARA O ALMOÇO

. Destacadas qualidades das...

. O PRIMEIRO JANTAR EM ANGO...

.arquivos

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Novembro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

.tags

. todas as tags

.pesquisar

.Visitantes

RSS